quinta-feira, 5 de abril de 2012

Primeira reunião da REMSC em 2012 – tema do ano: a relação museu-escola

Nem vou comentar sobre as razões que me levam a não conseguir mais ter tempo para o BLOG. Só digo que está valendo a pena me esfalfar com uma pesquisa que vem descortinando coisas muito interessantes. Pretendo começar a partilhá-la pelo Repensando Escolas – acompanhem! No mais, apenas compartilho com @s leitor@s do Repensando Museus: começo a viajar nesta 2f, dia 9/4 e só “aterrisso” de volta dia 5/5!!! Aff! Um tour beeeem brasileiro: SC/ MT/ RS/ SP/ PE/ TO/ MG... É mole?! E nada de capital, né, gente? Só em Sampa que uma “pausa” de 3 dias me aguarda (e o marido também!)... J Para me “energizar” e enfrentar essa maratona, virei as últimas duas noites trabalhando e hoje ficarei “de madame”, entre compras, manicure, médicos (Ah! Nem tudo são flores, né?) e esse BLOG!
Sendo assim, retomo minha escrita partilhando com vocês o encontro da Rede de Educadores de Museus de SC, ocorrido dia 23 de março passado, no Museu da Escola, no Centro de Florianópolis.  Nosso assunto era a relação museu-escola – tema que vamos debater ao longo de todo o ano de 2012 na REMSC. A ideia é problematizar relatos de profissionais de museus e também dos profissionais da escola (que tal você participar também com alguma experiência interessante?)
O primeiro depoimento foi da Profa. Elza Bonnassis da Nova – “Memórias da Escolinha de Arte de Florianópolis junto ao Museu de Arte de SC”.
Conta-nos Elza que a Escolinha de Arte de FLN foi fundada em 1963, com a mesma filosofia de trabalho da Escolinha de arte do Brasil, no RJ, criada por Augusto Rodrigues em 1948, isto é, bradava pela liberdade de expressão infantil defendendo a arte como veículo da criatividade das crianças. Não havia objetivo de ensino, mas de provocação do imaginário e da criação infantis – o professor deixava a criança livre e não interferia em suas produções. Eram aulas gratuitas, para crianças de 3 a 13 anos, que ofereciam histórias, músicas e outros recursos como detonadores / motivadores do processo criador. A Professora fala da trajetória da Escolinha de Arte desde as suas primeiras ideias, trazidas por João Evangelista de Andrade e filho, nos idos 1961, até os dias atuais na sua sede no Centro Integrado de Cultura (CIC).
O importante aqui é destacar que o início da relação da Escolinha de Arte com o antigo Museu de Arte Moderna de Florianópolis (MAMF), em 1963/64, era em busca de um local de exposição dos trabalhos das crianças – bem o oposto do que costuma ser hoje a relação entre os espaços educativos e os museus... Mas uma vez instalados na mesma casa do MAMF, perceberam que o simples passear / transitar livremente pelo museu era também uma forte maneira de fervilhar a criação das crianças! O contato permanente, estreito e íntimo, com os artistas e suas obras acabavam ampliando as experiências estéticas das crianças frequentadoras da Escolinha de Arte e naturalizando junto aos pequenos a possibilidade de criar e expressar-se autoralmente.
O trabalho vai ganhando fôlego e a procura aumenta. Em 1968 fazem o primeiro Curso regular de Educação criadora (CREC), a fim de formar maior contingente de profissionais para o trabalho. Defendendo a integração das diferentes linguagens artísticas, começam a oferecer, além de artes plásticas, musicalização para crianças: criavam instrumentos, brincavam e exercitavam o som e o ritmo, buscando a interface entre artes plásticas, cênicas e musicais.
Foi em 1979 que a Escolinha se desvinculou do Museu e passou para a Fundação Catarinense de Cultura (FCC). Muito embora tivesse com mais de 600 alunos, vários cursos para professores – por exemplo, o Curso Intensivo de Criatividade na Educação (CICE) – e projetos na Escolinha e itinerantes, ela perde o cotidiano doo Museu... Anos depois, mesmo vindo a se situar ao lado do atual Museu de Arte de SC (MASC) e até fazer visitas e desenvolver alguns projetos em parceria, essa intimidade nunca mais foi a mesma e isso é avaliado por Elza como uma perda para as crianças.
Depois de Elza, falou a Profa. Sonia Terezinha Pereira Moro, da Escola Municipal João Gonçalves Pinheiro: “Museu, cidade; Cidade e Escola”. Ela narra sua experiência com a Oficina “Escola, Museu, Turismo”, promovida em maio/2009 no Museu Victor Meirelles (MVM), em Florianópolis. Conta-nos Sonia que era uma oficina para professores que visava abrir possibilidades para repensarem sua prática educativa e o espaço histórico, geográfico, cultural da cidade. A Professora ressalta que um dos pontos fundamentais para viabilizar a ideia foi o oferecimento de transporte aos professores e seus alunos (batalha antiga... Alô gestores!!).
Sua escola levou uma turma de 4º ano, e dividiu as crianças em dois grupos: parte foi visitar o MVM; outra parte foi conhecer os jardins do Palácio Cruz e Souza, a Praça XV, o Miramar e duas Igrejas (Nossa Senhora do Rosário, e São Benedito) – explorando a arte, as relações sociais e culturais, a história e a geografia. As crianças tiraram fotos do local e, de volta à escola, construíram cartazes a partir da reatualização da obra Vista da Desterro, pintada por Victor Meirelles em 1847, destacando semelhanças e diferenças entre a Desterro daquela época e a Floripa de hoje. Os trabalhos forma expostos na Feira Cultural da escola, onde puderam não apenas refletir sobre a cidade, mas, sobretudo, sobre o próprio processo de produção artística (técnica, autoria etc.), sempre na dimensão de apreciar-fazer-refletir.
Sonia ainda contribui na discussão ressaltando que um dos obstáculos enfrentados foi a resistência de alguns professores da Escola que não têm a prática de visitar espaços expositivos e não percebem a importância disso. Alerta, ainda, o campo museal para a necessidade de rever seus horários, pois as escolas começam as aulas cedo, e comumente chegam aos museus e os encontram ainda fechados...
O último relato do dia foi da Profa. Renata Lewandowski Montagnoli, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Oswaldo dos Reis, no município de Itapema – “Conhecendo um pouco da nossa história”. Trabalha como professora de história de 6º ao 9º ano e sempre busca passeios que possam ajudar a visualizar/ concretizar os conteúdos de história trabalhados (além dos equipamentos multimídia). Os passeios, então, já fazem parte do cotidiano de seus alunos que já os aguardam ansiosamente. O maior obstáculo tem sido conseguir apoio da Secretaria de Educação para o transporte (uma vez que também a proíbem de ratear o custo com os alunos) – prejudicando o desenvolvimento de um trabalho pedagógico mais diferenciado [vejam que o transporte volta à cena aqui!!]. Considera que, dentro deste contexto, sua escola é uma exceção, pois tem um corpo docente muito comprometido e reivindicador. Enfrentam ainda: não poder fazer ligações telefônicas para DDD diferente (e os espaços culturais são em outras cidades...); e a explicitação de que os professores que solicitam passeios são vistos como “malandros” que não querem trabalhar, “só” passear... É categórica em afirmar (e eu assino embaixo!): faltam políticas públicas que favoreçam (e assegurem!) o acesso à cultura para @s alun@s!
Em seu relato, Renata contextualiza que Itapema é um município turístico e de comércio; e que sua escola fica num bairro característico de colonização açoriana, cujas famílias não costumam frequentar o museu, o zoológico, o observatório ou outro equipamento cultural circunvizinho; e depois compartilha conosco sobre uma visita em novembro de 2011 ao Palácio Cruz e Souza / Museu Histórico de SC (MHSC), com dois grupos de 8º ano (12 a 14 anos). A maioria nunca tinha ido ao Museu e muitos sequer conheciam Florianópolis – capital distante apenas 60km de onde moram). Seu objetivo então era estabelecer relações entre o passeio e a independência do Brasil + lazer – isto é: educação + entretenimento = edutenimento. Buscou abordar a simbologia da época, o desenvolvimento da província de SC, a arquitetura, a organização política etc. Conta que as crianças todo o tempo fazem associações de ideias com o que conteúdos/imagens vistos em sala, materializando e dando significação às suas experiências.  
A Professora conta que as turmas levaram máquinas fotográficas e cadernos para registro, e depois desenharam o que mais chamou a atenção – gerando uma troca de ideias, debate, e despertando a perspectiva de pertencimento. Conta ainda da vontade das meninas e meninos em tocarem tudo, mexerem, uma vez que não tendo experiência museal anterior, desconhecem os códigos de conduta gerais dos museus.
Renata finaliza fazendo uma sugestão para a classe museal: que enviem às secretarias de Educação e para as escolas um catálogo com os contatos e horários de atendimento dos museus em cada cidade (muitas escolas não têm acesso á internet!), sinalizando também as disciplinas que mais facilmente podem ser trabalhadas naquele local – uma porta a mais sendo aberta!!
Não percam o próximo encontro da REMSC, dia 23 de abril, 2f, de 13:30/17:30h, no mesmo Museu da Escola. Até lá!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Conversa vai, conversa vem... e a relação escola-museu vem à tona de novo

Poxa, gente... Parece até que desisti do BLOG, não é mesmo? Que horror! MORRO de saudades de escrever com mais calma, mas as coisas apertaram um pouco nesse período de trabalho – já, já acalma de novo (espero!)!
Minha sorte é que pessoas maravilhosas continuam lendo e comentando – obrigada!! =)
Aproveito, então, para me desculpar pelo “sumiço” e partilhar parte da mensagem que recebi da Zilá Regina Kolling, do Rio Grande do Sul (Pedagoga, ex-coordenadora do Museu Arqueológico do RS – MARSUL, em Taquara). Depois de problematizar em seu email o fato de as pessoas ainda acharem que Museu é para ser apenas “olhado” durante as visitas, Zilá, que trabalha atualmente em duas escolas, traz à tona as aproximações e distanciamentos entre as propostas museais e escolares, quando observa:
“(...) As vezes olho as crianças pequenas ou os adolescentes ocupados em alguma atividade que os interesse e penso.... Quando sairemos da escola compartimentalizada? Esclareço que sou defensora da intervenção, do diálogo, da construção da aprendizagem... Porém, acredito que algumas vezes devemos desafiá-los, levando-os a passear, a olhar com leveza e vontade ao redor, seja na rua, na floresta, no museu, e conceder-lhes um tempo de assimilação e acomodação que lhes é de direito. Em um momento adiante, não necessariamente, no outro dia, podemos estimular as conexões, as construções sistematizadas. Ainda que troquem a todo momento... Penso sempre no grupo Guarani com o qual também trabalhei, lá no museu, e que sempre afirmava sua forma de educar...não existia uma escola totalmente separada de tudo... a escola pode fazer o papel de museu e vice-versa... não querendo realizar distorções, mas com uma boa mediação se aprende em muitos lugares... (...)”
Sem dúvida é assunto infinito e sem resposta única. IMPORTANTÍSSIMO levarmos as crianças e jovens aos museus - mas sem esquecer que museu e escola, embora sejam ambos espaços educativos, são diferentes, não é mesmo?? Por isso mesmo a Rede de Educadores de Museus de SC está dedicando todos os encontros de 2012 à temática Museu-Escola; assim como o Sistema Estadual de Museus daqui de SC criou um GT sobre o assunto.
Bem, foi só para dar um “oi” e dizer que, embora sumida, estou viva e ativa! =))
E para encerrar por hoje, que tal assistirem o filminho de 2 minutos sobre visitação em museu que Gaby Patriota viu na TV cultura e me enviou o link?

quarta-feira, 7 de março de 2012

Mas isso é museu, gente?!

Cá estou de volta desde ontem de tardinha em Floripa, mas por apenas dois dias... :( Será que virei caixeira viajante? Aff!
Bem, mesmo corridinho, queria fazer um comentário aqui no BLOG a partir de uma mensagem que recebi da Mabel Faleiro, do Circuito Cultural Liberdade (BH).
(...) a respeito do museu da criança, de Buenos Aires, texto postado dia 2 de fevereiro de 2012, não entendi porque é considerado um museu e não apenas um espaço de brincar, que por sinal é MUITO bacana - Uma brinquedoteca genial!!
Adorei a provocação que Mabel fez ao guest-post da Ariane Azambuja, que intitulei Museo de los Niños em Buenos Aires – o olhar do outro... Na realidade, partilho essa inquietação com @s leitor@s do BLOG lááááá atrás (em 16 de fevereiro de 2011!), quando escrevi a postagem Bebês nos museus – e também no cinema, nas brinquedotecas... Nela eu cito a experiência do Explora – Il Museo Dei Bambini di Roma que, assim como este museu de Buenos Aires, também se propõe a ser uma espécie de minicidade e deixar que as crianças vivam o papel exclusivamente destinado aos adultos na vida cotidiana. Ao final da postagem, deixei uma provocação, que é exatamente o mote da questão da Mabel - escrevi: “Por que chamar isso de museu? Qual é a especificidade em relação a um parque de diversão infantil, por exemplo?”
Importante destacar que os museus das crianças se dizem voltados a estimular a curiosidade e motivadores da aprendizagem – e baseiam-se na definição do International Council Of Museums (ICOM) para autodenominar-se de museus. Vamos lembrar o que o ICOM aprovou como definição de museu em sua 20ª. Assembleia Geral, realizada em Barcelona/Espanha, dia 6/7/2001? “Instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para educação e deleite”. Bem, se tomarmos por esta definição, mais ampla e plural do que têm se mostrado muitas práticas museais que conhecemos, não resta muito que questionar sobre este espaço ser, ou não ser museu... Mas ainda assim, particularmente, acho que sempre cabe problematizar, pois a fronteira fica extremamente tênue mesmo...
Em sua postagem, Ariane Azambuja passa batido por esta questão e se preocupa com outra: a questão ética do impulso ao consumo – algo que, mesmo tangencialmente, tento sinalizar cada vez que anuncio a criança como consumidora crítica de cultura... Embora focada nesta perspectiva problematizadora, entendo que Ariane arrumou um ótimo argumento a favor destes museus... Escreveu ela: “(...) Experenciar este museu, apesar de eu mesma não ter podido mexer em nada, foi bastante diferente de todos os outros em que já estive principalmente em razão de um fator: a grande alegria das pessoas que estavam dentro dele. Para aquelas crianças, estar ali era algo imperdível, fascinante, pois elas eram estimuladas o tempo todo a criar histórias, a completar o que viam. Isso me fez pensar na proporção que aquilo poderia tomar em suas vidas, devido ao laço afetivo que estavam criando com o museu (...)” [grifos meus].
Ah, isso é mesmo forte! É quase de dar inveja nos demais museus pensar que há um espaço museal onde as pessoas visitantes estão alegres, envolvidas, fascinadas... encantadas! =) Por outro lado, como boa “advogada do Diabo”, quero apenas soltar uma leitura problematizadora: leiam o texto da Luciana Ostetto, intitulado “Mas as crianças gostam, ou sobre gostos e repertórios musicais”, no qual ela discute exatamente nosso papel de adultos mediadores (no caso do texto, o recorte é na linguagem musical) frente ao querer/gostar infantil (In OSTETTO & LEITE. Arte, infância e formação de professores: autoria e transgressão. Ed. Papirus). Luciana Ostetto aponta duas questões: como a criança pode gostar daquilo que não conhece? Por isso nos chama à responsabilidade de favorecer experiências culturais de qualidade; e o outro aspecto para (re)pensarmos: devemos proporcioná-la apenas/ justamente aquilo que ela já conhece e gosta? O que nos leva a (re)pensar também nosso papel como selecionadores e problematizadores do consumo desenfreado e acrítico promovido pela mídia, pela cultura de massa... Enfim! Entendo que este aspecto se aproxima muito da questão ética levanda pela Ariane em sua postagem...
Bem, o ponto da Mabel não tem uma resposta única e certa; ele é bom exatamente porque possibilita vários ângulos e abordagens... Salve, Mabel! =)
Notinha de rodapé: Gente, olha que legal que a Ana Beatriz Bahia me mandou! O link de um texto de Ivana Souza e Lynn Alves, intitulado “Jogando nos Museus Virtuais – considerações preliminares: os jogos online como experiência educativa nos museus virtuais brasileiros”, no qual um dos jogos analisados foi justamente o querido Caixa de Brinquedos, fruto de parceria nossa quando eu estava no Museu da Infância!! Aproveitem para ler e brincar!!
E não deixem de seguir também o Repensando Escolas, que acaba de completar seu primeiro mês no ar, com 15 seguidores, 9 postagens e mais de 570 acessos... – já conhecem?!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Carnaval e museu através do olhar do outro...

Dia desses recebi uma mensagem muito carinhosa pelo facebook, de uma pessoa chamada Biba Arruda. Ela também tem um blog e posta, entre outras coisas, experiências vividas pelo pequeno Miguel, seu filho de 6 anos. Agradeço à Biba e partilho aqui um trecho da postagem que ela fez em http://euaprendoenquantoensino.blogspot.com/2012/02/paz-e-guerra-domingo-de-carnaval-2012.html que super dialoga com minha última.
Leiam a postagem dela [os grifos azuis são meus], que colo abaixo: mergulhem na viagem que Biba nos conta; partilhem de seu deleite, entrega, despojamento, impacto, admiração; discutam sobre a possibilidade de a arte emocionar, sacudir, impulsionar, chacoalhar; perguntem-se sobre o contraponto e o confronto que podem inverter papéis – e a arte ser o ponto de partida que aprecia o público... E, ainda, com Biba, aprendam como essa inversão de papéis também é ótima quando se dá entre adultos e crianças: de provedores de informação, podem os adultos passar a sorver as palavras e observações advindas dos pequenos; exercitar um outro ponto de vista, outro ângulo – e assim cada vez que vermos a (mesma) obra, ela poderá ser sempre outra, inaugural...
Obrigada, Biba! =)

Paz e Guerra - Carnaval 2012
(...) O feriado imprime outro ritmo. Mais flexível e sem pressa. (...) Fantasia a postos. Miguel inventou a própria. Meu amor de camisa branca e bermuda de flores vermelhas. As flores também não faltaram nos meus cabelos. Vestido rodado da cor do coral dos mares do Pacifico, modelo tomara que caia, me deixando a vontade pra rodopiar e dançar aproveitando com alegria a festa. Miguel, criativo, inventou um pirata contemporâneo, com direito a chapéu preto, capa, espada. Deu conta daquilo que estava ao seu alcance. Na hora de sair, pediu uma gravata ao pai. (...) Achávamos que Miguel complementaria sua indumentária de pirata com o adereço requisitado, inusitado, mas quem somos nós para cortar sua criatividade. Para nossa surpresa, Mig tirou a fantasia do pirata estilizada por ele mesmo, e colocou a gravata: - Vou fantasiado de professor! Lá foi nosso mestre. Gostamos da escolha. Do apreço. Da magnitude dada a tão nobre oficio. Se vestiu de professor e pôs seu bloco na rua.


(...) Saímos de lá, com nosso bloco em versão reduzida: Papai, Mig e eu. Maria Clara está na casa de Julia e Ana The está viajando. Fomos até o Memorial da América Latina, um complexo arquitetônico de Oscar Niemeyer [www.niemeyer.org.br/]. Desavisados, estacionamos distante do local da exibição que nós planejamos visitar. Mas como nada existe "por acaso", esta distância nos fez caminhar pelo Memorial: fomos à exibição contínua, onde pudemos nos deleitar com a arte nativa do Brasil, do Peru, da Colômbia, entre outros países que compõe nossa América Latina. Tem homenagem à arte de Frida. Oportuna visita no carnaval – Miguel observou de perto as vestimentas utilizadas por um casal Porta Bandeiras de uma escola de samba, que ele assiste na tela da TV e ensaia seus passinhos caindo no samba e esticando as mãos como Mestre-Sala pra Maria, sua irmã de 11 anos, dançar com ele. Fofos estes dois! Dois baianos com samba no pé!
Enquanto Mig e eu comentávamos o que víamos, papai ia em outro ritmo, observando detalhes com mais atenção. Eu ia falando alto o que achava interessante, Miguel divertindo-se também. Daí que paramos diante de uma mostra de bonecos e um altar móvel. Ele olhou as caveiras e falou: - Que horror!!!
Duas mulheres que também estavam apreciando caíram na risada e eu também! Percebi que no afã de querer mostrar o que estava vendo, não permitia que ele visse e editasse o que mais lhe chamava atenção. E a partir daquela vitrine, invertemos o jogo – ainda que sem expressar as novas regras – ele foi o monitor da nossa visita! Digo que foi bem interessante ter este menino sensível me mostrando o que estava vendo. Claro que quis colocar seus braços dentro da bocona do jacaré de madeira... Difícil não poder tocar! Mas desde cedo ensinamos: - Mãos de museu!
(...) Chegamos ao espaço destinado onde, em pouco tempo, estaríamos frente a frente, aos últimos e maiores murais (14 x 10 m) executados por Portinari entre 1952 e 1954. Encomendados pelo governo do Brasil para presentear a sede da ONU em NY, localizados no hall de entrada da Assembléia Geral, os monumentais painéis estão em local nobre, porém de acesso restrito. Por este motivo, o acesso ao grande público é um sonho do Projeto Portinari. Aproveitando a reforma que acontece no prédio da ONU entre 2010 e 2013, isto foi possível. Resultado de mais de três anos de empenho e articulações com o Governo Federal, instituições internacionais, empresas estatais e privadas, finalmente o sonho se tornou uma realidade! E tínhamos apenas uma porta entre nós! (...)
Chegamos à porta daquele espaço tão alto, não havia filas, nem ninguém; os monitores conversavam entre eles, e se comunicavam por rádios: - Estes são os últimos a entrarem! E colavam em nosso peito adesivos com o logo da expo Guerra e Paz. - A exposição será encerrada por hoje?, perguntei. - Não, existe um número determinado [de pessoas] para as obras serem apreciadas. E fomos encaminhados sem maiores delongas. Inicialmente achei difícil me posicionar para ver a totalidade da obra. Achei que precisava de um recuo maior, andei de lá pra cá. Assustei-me com tantas pessoas fotografando e filmando. O lugar era escuro. Refleti: É melhor estar do que registrar. Complicado ver através das lentes, quando se está in loco. Retomei o foco: eu que não deveria me distrair com tal quesito, pois havia tanto em que me entreter diante daquelas obras imensas! Lá dentro estava completamente lotado e Miguel passeava naquele escuro de lá pra cá. Numa dada hora, Renozinho encontrou nosso miúdo super bem posicionado. Achou uma cadeira e sentou ali atrás. Renozinho falou: - Miguel achou o melhor lugar para apreciar a obra.
 Os painéis ficam expostos um na frente do outro. É um
contraponto imenso! Um confronto
!

 (...) Enquanto buscava o melhor lugar, andando entre as
pessoas que admiravam a obra e eram impactadas por ela, fomos surpreendidos pelo aviso que o audiovisual começaria em breve. Todos foram convidados a sentar no chão e, de certa maneira, nos despojarmos de tudo. Renozinho, eu e Miguel deitamos mesmo. E nos entregamos ao belo documentário “Guerra e Paz”, com roteiro e direção de Carla Camurati, trilha de Villa Lobo, com a voz de Milton Nascimento narrando, e as imagens desfilando sobre nós. A tela onde estas imagens eram exibidas acompanha as dimensões dos painéis, que eram vistos pelos espectadores... A minha sensação, ali deitada, era que, naquele instante, as obras apreciavam as criaturas. Foi emocionante! [www.guerraepaz.org.br
Saímos dali emocionados! A arte sacode, impulsiona, chacoalha. Miguel estava na mesma sintonia. Na biblioteca, outra exibição: detalhes e desenhos do projeto, cartas escritas e datilografadas. Senti-me uma voyeur observando o processo criativo. O texto de Dinah, na parede da esquerda, na saída da exposição, me emocionou. A maneira que ela descreveu o momento que Portinari sofria dizendo que os médicos o haviam proibido de continuar a pintar, já que o material o estava envenenando. - O chumbo do óleo, me explicou Renozinho. Luxo ter este moço pra complementar sensivelmente o que vemos no museu. Fabuloso ler os escritos de Cecília Meirelles, de Dinah Silveira de Queiroz, de Rachel de Queiroz, Milton Nascimento sobre a obra de Portinari.
Emocionante ler na parede, o escrito do filho João Candido Portinari, transcrevendo trecho de uma carta, quando ele reENCONTROU seu pai através da sua obra. Ver o desfile das obras de Portinari sentadinha em pufs confortáveis, com a opção de ouvir um som nos fones incríveis. Deleite. Confronto interno: o que é paz o que é guerra para mim?
 (...)"A paz é figurada com tons dourados, alegres, crepitantes de vida, o pintor parece nos dizer: A paz universal é possível. Dia virá em que a humanidade desfrutará da paz sem limites no espaço e no tempo" (trecho do artigo publicado no livro "Guerra e Paz – Portinari”, editado no ano do cinquentenário da instalação dos painéis na sede da ONU)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Carnaval, Cinema e Museu... miscelânea deliciosa!

Embora brasileira e carioca, é verdade que nunca fui muito atraída pelo carnaval. Quando criança, passava feriados e férias com minha avó paterna, na serra fluminense, longe de toda e qualquer folia. Mais tarde, a experiência de acompanhar os desfiles das escolas de samba pela TV nunca me atraiu – ao contrário! – confesso que achava aquilo tudo até meio monótono. Assim foi até que, há alguns anos atrás, um amigo ligou oferecendo dois ingressos que havia recebido da empresa onde ele trabalhava, para meu marido e eu irmos assistir ao Desfile das Campeãs no Sambódromo. Lá fomos nós – e aqui conto para vocês: foi uma das mais impactantes experiências estéticas da minha vida! Teatro, música, dança, artes visuais... tudo parecia fluir ali, de forma pulsante e interconectada. Estávamos num lugar no chão, ao lado do recuo da bateria, tomados pelo eco seco de seus surdos; capturados pelo ritmo contagiante dos sambistas desfilando; inebriados pela alegria e orgulho indisfarçáveis daqueles tantos homens e mulheres anônimos ali transformados em centro das atenções... Lágrimas do lado de lá, e de cá, do fino alambrado que nos separava. Uma cccoooiiisssaaa!!!!!!

Ter uma experiência marcante (para o bem, ou para o mal) é algo muitas vezes incomunicável; não compartilhável... Até mesmo porque pessoas diferentes, diante da mesma experiência, serão arrebatadas de maneira diversa, única, singular – fruto das tantas outras vividas (ou não); resultado de seus acervos anteriores; de seu repertório vivencial. Mas exatamente porque a ideia do BLOG é partilhar e abrir o debate, trago nesta postagem outras “experiências carnavalescas”... J
Esse ano, cheguei em casa, em Floripa, no sábado de carnaval, depois de uma intensa semana de trabalho em Brasília e São Paulo. Optamos por ficar fora da muvuca e colocar os filmes em dia (aliás, foi uma ótima opção diante de um calor escaldante e das infindáveis filas de carro procedentes dos mais variados países e estados, que pareciam surgir de todas as direções e ir em todas as direções!). O primeiro, A Dama de Ferro, com magistral performance de Meryl Streep no papel de Margaret Tatcher, chegou-me quase como um aviso-assombração que acaba por nos perseguir cotidianamente: o trabalho árduo, a dedicação ao âmbito profissional, o pouco tempo para os filh@s e companheir@ (impossível alguém que, como eu, começou a trabalhar aos 16 anos e tem 4 filhas não se (re)pensar permanentemente sobre isso, né?!) – como a nossa contemporaneidade nos exige um ritmo cada vez mais frenético! E, claro, isso tem deflagrado tentativas de respostas.. o movimento do slow food; fortalecimento de feirinhas orgânicas; sites de crowdfunding (aliás, vocês conhecem a Benfeitoria?!); propostas pedagógicas em defesa do livre brincar infantil a partir de brinquedos não estruturados; entre outros tantos. É necessário (re)negociarmos nossos tempos – caso contrário, o olhar sempre fugidio pode desaprender a ver...
E é aí que entra o segundo filme – embora tenhamos tantos recursos quase pirotécnicos atualmente disponíveis, O Artista assume-se no desafio de ser uma produção PB e mudo! A projeção na tela vai pouco a pouco se apoderando de nós e, como que nos enfeitiçando (ou seria desenfeitiçando?!), torna a nossa respiração mais lenta; faz com que nos movimentemos mais devagar; promove emoção intensa a cada passo (Ah! Será que nossas idas ao museu têm sido assim?!)... Assistia ao filme e pensava cá com os meus botões: 1) tenho que proporcionar ao meu neto Caio, de 13 anos, essa experiência diferenciada de temporalidade e imagens... ; 2) como é bom lembrar de ter tantas vezes ficado sentada no banco da Tate Modern, “viajando” em frente à obra do Pollock... ; 3) como seria maravilhoso que todos os museus nos favorecem momentos de sonhar, poetizar, de nos enlevarmos...
E assim, na 3f resolvemos encerrar nossa orgia cinecarnavalesca com espírito alerta e alegremente juvenil, assistindo ao filme do Scorsese, A invenção de Hugo Cabret. Barulhento pela criançada animada pela experiência em 3D, pensava mais que apenas fugiria do calor, e menos me surpreenderia. Mas imaginem que Jude Law, na pele do personagem pai do menino protagonista, além de consertar relógios e mecanismos diversos, trabalhava num museu!! Este museu, no universo do filme, surge como local de memória, de bens preciosos... Adiante, outro personagem, representando um estudioso de cinema, surge tendo outra espécie de museu: um espaço museal de afetos, de relíquias, de fragmentos de um tempo e um lugar; um museu que guardava rastros do supostamente desaparecido George Méliès – famoso ilusionista e um dos precursores do cinema. Emoção pura ver a manipulação dos objetos, a maneira como foram identificados e guardados; mas, sobretudo, emoção foi ver o personagem George Méliès, diante de uma plateia prestes a assistir seus filmes, dizer algo assim: “Vocês agora vão ser aquilo que vocês são: magos, mágicos, aventureiros, viajantes... e estão todos convidados a sonhar juntos”.
Parece mesmo que minha miscelânea carnaval-cinema-museu foi esclarecedora, pois quero militar dia a dia mais por museus que entendam seus visitantes como magos, mágicos, aventureiros e viajantes – e os convide, sempre, a sonhar juntos! Que assim seja!
Notinha de rodapé: na 2f engreno em nova viagem e só retorno para Floripa dia 6 de março. Será que vou conseguir postar estando fora?! Acompanhem e aproveitem para reler as mais de 100 posts anteriores! =)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Férias escolares – bom pretexto para ampliar o repertório cultural das crianças!

Ando morrendo de saudades de escrever aqui no BLOG, mas não tem sido fácil arrumar tempo. Não bastasse estar com bastante trabalho, exatamente por ter tido a experiência no Repensando Museus e perceber cotidianamente a força de um blog, acabei criando outro: WWW.repensandoescolas.blogspot.com  A ideia inicial é que ele seja alimentado com dados de uma pesquisa que estou fazendo como parte de uma consultoria ao MEC, através da UNESCO, para subsidiar as políticas de ensino fundamental.


Bem, como além de atolada estou viajando muito para lá e pára cá, as postagens do Repensando Museus têm sido mais sobre questões ligeiras que me chegam via web – enquanto as anotações de campo sobre os muitos museus já visitados ganham poeira na minha mesa de trabalho. Paciência – as consultorias são cíclicas e já, já a coisa acalma... =)


Lendo emails diversos recebidos de amigas que têm filhos pequenos, vejo que há algo de interessante a ser comentado aqui. Viviane me escreve contando que sua filha, Isabella, esteve numa Casa de Fado, em Portugal. Além de assistir ao espetáculo, aceitou participar, tocou triângulo, cantou, dançou e ainda encantou a plateia fazendo mágicas. Juliana, por sua vez, me escreve feliz da vida por ter podido levar sua filha Catarina também à Europa e narra o quanto a pequena tinha curtido, estudado antes de ir, feito roteiros sugestivos, incrementado o francês etcetal. Nessa semana de início das aulas, Catarina, que passou para o 5º. ano do Ensino Fundamental (antiga 4ª. série), escreveu um pequeno texto, fruto de sua experiência européia, que intitulou “Convivendo com as diferenças”. Nele, destaca que “As pessoas não são iguais às outras e isso é muito bom, pois nos torna especiais. (...)”.


O importante disso é sublinhar a capacidade de essas duas meninas surpreenderem-se com o visto/vivido em outro lugar; sua possibilidade de aprender com o diferente; de ampliar repertórios culturais. Como já dito em tantas outras postagens, é na relação com o outro – nesse permanente jogo de alteridade/identidade – que me constituo sujeito. As infinitas aproximações e distanciamentos que se estabelecem nessas experiências são as bases para as inúmeras possibilidades de interações futuras dessas meninas com o universo ao redor; são os alicerces para a construção de um mundo mais plural e para um relacionamento mais respeitoso em suas especificidades. As duas mães em questão puderam ver, como me escreveu Viviane, os olhos dessas meninas “brilharem de satisfação e alegria a cada descoberta”... E esse será sempre nosso desafio: como tornar nossos museus, e demais equipamentos culturais, espaços de descoberta?


Não basta levar as crianças para passear/viajar. Como contra exemplo às duas histórias acima narradas, lembro-me da frase de minha sobrinha, Clara. Menina ativa, que adora viajar e conhecer coisas novas, conta-me que ano passado, para celebrar o término dos anos iniciais do Ensino Fundamental, sua escola promoveu um passeio. Animadas, as crianças chegaram ao local e, a primeira coisa que a escola ofereceu foi... uma palestra!! Clara conta isso com todas as caras e bocas de uma menina crítica que sabe bem discernir que o tiro tinha saído pela culatra – a animação murchou e o local visitado é lembrado como lugar chato que não merece retornos. Essa opção, bem sabemos, muitos museus fazem: assim que chegam, as crianças são encaminhadas a um espaço não-museal, sentam-se e ouvem, ouvem, ouvem... sendo privadas da melhor parte: a experiência de estar num museu!


Diferentemente, a descoberta da criança é plena de maravilhamento, de encantamento! E nós, adultos, podemos nos beneficiar com isso se estivermos com olhos e ouvidos atentos às suas expressões. Foi isso que Gaby partilhou por email: a associação de ideias que a pequena Clarinha (que não é a minha sobrinha...) teve ao deparar-se com uma vitrine do Museu de História Natural e imediatamente exclamar: o macaco tem arte no rosto! A foto abaixo, enviada pela mãe, nos dá o prazer de partilhar do insight dela...


... que também soube bem como se transformar num pinguim!


E é nessa dimensão de observação atenta que entendo a felicidade de Celia, ao partilhar as imagens das primeiras pinturas do pequeno Miguel (que, assim como a Clarinha supracitada, já frequenta as postagens deste blog desde que nasceu!).


Os processos de apropriação e de produção de sentidos nos pequenos são muito imbricados. Para compreender o universo no qual está inserido, Miguel toca, lambe, aperta, experimenta, morde, cheira, olha... o mundo. E ao mesmo tempo, se mexe, arregala os olhos, levanta as sobrancelhas, dança, corre, balança os braços... e agora pinta! Sua possibilidade expressiva vai pouco a pouco se ampliando na medida em que coordena mais seus movimentos, apura seus sentidos, desenvolve sua oralidade etc.

Como adultos-mediadores, é importante estarmos sempre atentos às novas descobertas das crianças e prontos para estimular a curiosidade infantil, favorecendo o acesso a espaços de encantamento! Espaços carregados de surpresas!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

PROTEÇÃO VS EXPOSIÇÃO – UM ETERNO DILEMA!

Meu atolamento em trabalhos acaba me deixando menos ativa no BLOG (embora seguindo uma média que me fará alcançar minha meta de 100 postagens ao longo desse ano), mas me rendendo (além da grana, é claro!) uma coisa muito legal: a possibilidade de juntar comentários sobre diferentes postagens e escrever a partir deles. Esse é o caso da escrita de hoje!
Em dezembro e janeiro passados, enviei um pequeno texto para o mailing list que tomava como mote a história da menina no Parque Nacional do Iguaçu, que narrei nesse blog em 29 de novembro de 2011A partir da observação que fiz sobre a menina, abri uma pequena discussão que intitulei “Proteção vs Exposição – um eterno dilema!”. A questão de fundo estava justamente na problematização inerente a todos os museus: se expomos um objeto, o colocamos em risco e o desgastamos mais; se o guardamos escondido e protegido, não deixamos que cumpra sua missão de comunicação junto ao público.
Bem, o que interessa aqui é partilhar dois comentários que (para variar...) recebi diretamente pelo email. Viviane, pedagoga, moradora de Balneário Camboriú/SC, mãe da pequena Isabella, escreveu:
Li seu e-mail sobre as memórias da infância. É uma pena que existam pais que privem seus filhos de guardarem lembranças nas quais os cinco sentidos se fazem tão presentes. Existe um filme italiano que conta a história de vida do grande sonoplasta, Mirco Barelli, chamado "Rosso como il celo". Nele, este jovem menino, por uma fatalidade, acabou perdendo a visão e tão criativamente soube utilizar os outros 4 sentidos que lhe sobraram – até porque era um menino criado com brincadeiras de rua, e por isso mesmo a imaginação e a criatividade se faziam presentes a todo momento.
Embora não conheça o filme, gostei da associação de Viviane, pois traz à tona a importância da imaginação, da criatividade e das brincadeiras na construção do nosso repertório vivencial, e assim, na constituição das nossas subjetividades. Num grupo de especialistas que comigo prestam consultoria à UNILEVER para o Prêmio “Pelo Direito de Ser Criança...”, um dos pontos que muito debatemos é o fato de os adultos sentirem-se irremediavelmente compelidos a privarem as crianças de todo e qualquer risco, ou experiências que requeiram menos controle, mais autonomia etc. Assim, pensando exclusivamente em protegê-las, acabam privando-as de experiências significativas, como o caso por mim narrado sobre a família no Parque Nacional do Iguaçu. É claro que as crianças têm que ser cuidadas e ter um ambiente seguro – mas não se pode confundir isso com o cerceamento completo de sua possibilidade de vivenciar coisas diferentes, explorar seus cinco sentidos, movimentos diversos, velocidades, temperaturas... enfim! Brincar com a terra, o fogo, a água e o ar, por exemplo, é algo a ser estimulado, e não privado entre @s pequen@s.
Bem, mas além da Viviane, a Neadine, do Centro de Memória Iracema, também se animou a comentar o mailing recebido. Para mim, o mais interessante é que cada uma das duas enfocou um ponto diferente... Adoro lembrar que aquilo que escrevo não é o que minhas palavras traduzem, mas aquilo que os leitores leem nelas! Assim, a partir de seus interesses, Viviane e Neadine tiveram percepções diferenciadas do meu texto – e é exatamente isso que acontece também quando vamos a um museu: cada espectador verá um museu diferente!
Mas, afinal, o que escreveu Neadine? Seu comentário situou-se exatamente na questão museal, mais precisamente no dilema sobre a preservação vs a exposição.
(...) Assim como os objetos, os documentos, se eu não os preservar, eu os perderei. A oferta de exposições deveria proceder com certas cautelas para não perder a qualidade do patrimônio de cultura. Cada espaço deve ser utilizado observando a especialidade museológica [do objeto exposto] e deve se adequar a ela. (...)
Neadine se posiciona sugerindo cautela – aliás, sábia sugestão! Cautela e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém, não é mesmo?! Resta-nos saber exatamente como nos mantermos num bom equilíbrio dentro dessa cautela, certo?
O Museu da Infância, que co-fundei em 2005 e mantive-me na equipe de coordenação até final de 2010, é um exemplo onde essa relação proteção/exposição se afirma cotidianamente. Por ser um museu sem paredes, embora protegido da chuva, não está imune à claridade na maioria de seus núcleos. Isso requer uma avaliação um pouco mais comedida dos objetos a serem expostos nas áreas mais suscetíveis à claridade, bem como um rodízio maior nas exposições etc. Não se pode deixar perder o patrimônio – isso é mister nos museus – mas também sabemos que o que dá significação aos objetos é o olhar do público: daí ser um eterno dilema! =)