Nem vou comentar sobre as razões que me levam a não conseguir mais ter tempo para o BLOG. Só digo que está valendo a pena me esfalfar com uma pesquisa que vem descortinando coisas muito interessantes. Pretendo começar a partilhá-la pelo Repensando Escolas – acompanhem! No mais, apenas compartilho com @s leitor@s do Repensando Museus: começo a viajar nesta 2f, dia 9/4 e só “aterrisso” de volta dia 5/5!!! Aff! Um tour beeeem brasileiro: SC/ MT/ RS/ SP/ PE/ TO/ MG... É mole?! E nada de capital, né, gente? Só em Sampa que uma “pausa” de 3 dias me aguarda (e o marido também!)... J Para me “energizar” e enfrentar essa maratona, virei as últimas duas noites trabalhando e hoje ficarei “de madame”, entre compras, manicure, médicos (Ah! Nem tudo são flores, né?) e esse BLOG!
Sendo assim, retomo minha escrita partilhando com vocês o encontro da Rede de Educadores de Museus de SC, ocorrido dia 23 de março passado, no Museu da Escola, no Centro de Florianópolis. Nosso assunto era a relação museu-escola – tema que vamos debater ao longo de todo o ano de 2012 na REMSC. A ideia é problematizar relatos de profissionais de museus e também dos profissionais da escola (que tal você participar também com alguma experiência interessante?)
O primeiro depoimento foi da Profa. Elza Bonnassis da Nova – “Memórias da Escolinha de Arte de Florianópolis junto ao Museu de Arte de SC”.
Conta-nos Elza que a Escolinha de Arte de FLN foi fundada em 1963, com a mesma filosofia de trabalho da Escolinha de arte do Brasil, no RJ, criada por Augusto Rodrigues em 1948, isto é, bradava pela liberdade de expressão infantil defendendo a arte como veículo da criatividade das crianças. Não havia objetivo de ensino, mas de provocação do imaginário e da criação infantis – o professor deixava a criança livre e não interferia em suas produções. Eram aulas gratuitas, para crianças de 3 a 13 anos, que ofereciam histórias, músicas e outros recursos como detonadores / motivadores do processo criador. A Professora fala da trajetória da Escolinha de Arte desde as suas primeiras ideias, trazidas por João Evangelista de Andrade e filho, nos idos 1961, até os dias atuais na sua sede no Centro Integrado de Cultura (CIC).
O importante aqui é destacar que o início da relação da Escolinha de Arte com o antigo Museu de Arte Moderna de Florianópolis (MAMF), em 1963/64, era em busca de um local de exposição dos trabalhos das crianças – bem o oposto do que costuma ser hoje a relação entre os espaços educativos e os museus... Mas uma vez instalados na mesma casa do MAMF, perceberam que o simples passear / transitar livremente pelo museu era também uma forte maneira de fervilhar a criação das crianças! O contato permanente, estreito e íntimo, com os artistas e suas obras acabavam ampliando as experiências estéticas das crianças frequentadoras da Escolinha de Arte e naturalizando junto aos pequenos a possibilidade de criar e expressar-se autoralmente.
O trabalho vai ganhando fôlego e a procura aumenta. Em 1968 fazem o primeiro Curso regular de Educação criadora (CREC), a fim de formar maior contingente de profissionais para o trabalho. Defendendo a integração das diferentes linguagens artísticas, começam a oferecer, além de artes plásticas, musicalização para crianças: criavam instrumentos, brincavam e exercitavam o som e o ritmo, buscando a interface entre artes plásticas, cênicas e musicais.
Foi em 1979 que a Escolinha se desvinculou do Museu e passou para a Fundação Catarinense de Cultura (FCC). Muito embora tivesse com mais de 600 alunos, vários cursos para professores – por exemplo, o Curso Intensivo de Criatividade na Educação (CICE) – e projetos na Escolinha e itinerantes, ela perde o cotidiano doo Museu... Anos depois, mesmo vindo a se situar ao lado do atual Museu de Arte de SC (MASC) e até fazer visitas e desenvolver alguns projetos em parceria, essa intimidade nunca mais foi a mesma e isso é avaliado por Elza como uma perda para as crianças.
Depois de Elza, falou a Profa. Sonia Terezinha Pereira Moro, da Escola Municipal João Gonçalves Pinheiro: “Museu, cidade; Cidade e Escola”. Ela narra sua experiência com a Oficina “Escola, Museu, Turismo”, promovida em maio/2009 no Museu Victor Meirelles (MVM), em Florianópolis. Conta-nos Sonia que era uma oficina para professores que visava abrir possibilidades para repensarem sua prática educativa e o espaço histórico, geográfico, cultural da cidade. A Professora ressalta que um dos pontos fundamentais para viabilizar a ideia foi o oferecimento de transporte aos professores e seus alunos (batalha antiga... Alô gestores!!).
Sua escola levou uma turma de 4º ano, e dividiu as crianças em dois grupos: parte foi visitar o MVM; outra parte foi conhecer os jardins do Palácio Cruz e Souza, a Praça XV, o Miramar e duas Igrejas (Nossa Senhora do Rosário, e São Benedito) – explorando a arte, as relações sociais e culturais, a história e a geografia. As crianças tiraram fotos do local e, de volta à escola, construíram cartazes a partir da reatualização da obra Vista da Desterro, pintada por Victor Meirelles em 1847, destacando semelhanças e diferenças entre a Desterro daquela época e a Floripa de hoje. Os trabalhos forma expostos na Feira Cultural da escola, onde puderam não apenas refletir sobre a cidade, mas, sobretudo, sobre o próprio processo de produção artística (técnica, autoria etc.), sempre na dimensão de apreciar-fazer-refletir.
Sonia ainda contribui na discussão ressaltando que um dos obstáculos enfrentados foi a resistência de alguns professores da Escola que não têm a prática de visitar espaços expositivos e não percebem a importância disso. Alerta, ainda, o campo museal para a necessidade de rever seus horários, pois as escolas começam as aulas cedo, e comumente chegam aos museus e os encontram ainda fechados...
O último relato do dia foi da Profa. Renata Lewandowski Montagnoli, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Oswaldo dos Reis, no município de Itapema – “Conhecendo um pouco da nossa história”. Trabalha como professora de história de 6º ao 9º ano e sempre busca passeios que possam ajudar a visualizar/ concretizar os conteúdos de história trabalhados (além dos equipamentos multimídia). Os passeios, então, já fazem parte do cotidiano de seus alunos que já os aguardam ansiosamente. O maior obstáculo tem sido conseguir apoio da Secretaria de Educação para o transporte (uma vez que também a proíbem de ratear o custo com os alunos) – prejudicando o desenvolvimento de um trabalho pedagógico mais diferenciado [vejam que o transporte volta à cena aqui!!]. Considera que, dentro deste contexto, sua escola é uma exceção, pois tem um corpo docente muito comprometido e reivindicador. Enfrentam ainda: não poder fazer ligações telefônicas para DDD diferente (e os espaços culturais são em outras cidades...); e a explicitação de que os professores que solicitam passeios são vistos como “malandros” que não querem trabalhar, “só” passear... É categórica em afirmar (e eu assino embaixo!): faltam políticas públicas que favoreçam (e assegurem!) o acesso à cultura para @s alun@s!
Em seu relato, Renata contextualiza que Itapema é um município turístico e de comércio; e que sua escola fica num bairro característico de colonização açoriana, cujas famílias não costumam frequentar o museu, o zoológico, o observatório ou outro equipamento cultural circunvizinho; e depois compartilha conosco sobre uma visita em novembro de 2011 ao Palácio Cruz e Souza / Museu Histórico de SC (MHSC), com dois grupos de 8º ano (12 a 14 anos). A maioria nunca tinha ido ao Museu e muitos sequer conheciam Florianópolis – capital distante apenas 60km de onde moram). Seu objetivo então era estabelecer relações entre o passeio e a independência do Brasil + lazer – isto é: educação + entretenimento = edutenimento. Buscou abordar a simbologia da época, o desenvolvimento da província de SC, a arquitetura, a organização política etc. Conta que as crianças todo o tempo fazem associações de ideias com o que conteúdos/imagens vistos em sala, materializando e dando significação às suas experiências.
A Professora conta que as turmas levaram máquinas fotográficas e cadernos para registro, e depois desenharam o que mais chamou a atenção – gerando uma troca de ideias, debate, e despertando a perspectiva de pertencimento. Conta ainda da vontade das meninas e meninos em tocarem tudo, mexerem, uma vez que não tendo experiência museal anterior, desconhecem os códigos de conduta gerais dos museus.
Renata finaliza fazendo uma sugestão para a classe museal: que enviem às secretarias de Educação e para as escolas um catálogo com os contatos e horários de atendimento dos museus em cada cidade (muitas escolas não têm acesso á internet!), sinalizando também as disciplinas que mais facilmente podem ser trabalhadas naquele local – uma porta a mais sendo aberta!!
Não percam o próximo encontro da REMSC, dia 23 de abril, 2f, de 13:30/17:30h, no mesmo Museu da Escola. Até lá!